quarta-feira, 20 de maio de 2015

Não faz diferença

— Oi bebê, tudo bom?

Na volta Júlio ligou para a mulher e ela atendeu e tais palavras lhe lançaram uma miscelânea de sensações, sobretudo dúvida e medo, preocupação e tensão e, por último, incerteza; todo o abstracionismo de que tem-se quem sente ou está conhecendo paixão. Entretanto, fazia três anos que os dois enamoravam-se e recentemente - exatamente um ano e meio - ao conseguir o novo emprego, dia a dia Júlio liga para a esposa-namorada a fim de saber como esta está; preocupação puramente vã, pois, conhecendo-a saberia que sempre está em casa porque nunca sai.

Nunca sai: não tem muitas amigas - e nem amigos - nem para onde ir. A certeza, por certo decerto, é de que toda vez que ligar nesse horário ela estará em casa, segura, talvez sã e queira Deus salva. Ainda assim, isto e aquilo o pobre Júlio…

— Tá onde? — era, afinal, como se sucedia as ligações.
— Tô em casa, por quê?
— Tu falou “Oi bebê”. Tá tendo alguma coisa aí?
— Não, só está eu, minha mãe e meu irmão aqui.

Três anos e fingia não conhecê-la. A verdade sobre Júlio é que não era um cavalheiro modelo. Tinha seus pecados — não!: ainda os cometia, mas sua condição como homem e contador de mentiras — pois o Diabo não perdoa homens que não mentem — agravava menos as suas sinas. Afinal, sua preocupação atual advinha de uma experiência complicada de alguns episódios acidentais.

O que mais poderia semear a paranoia? Mero castigo divino? A sucessão escatológica do destino daqueles que não merecem um relacionamento?

A merda já estava feita e Júlio nada podia para desfazê-la.

— É que geralmente você tá irritada… mas enfim, tá tudo bem aí?
— Você acha que eu sou irritada?
— Não foi isso qu…
— Se bem que hoje eu estava irritada no trabalho, mas já passou.
— Por quê?
— Por que o quê?
— Por que que já passou?
— Quer lembrar e me deixar irritada contigo?
— Não, não…

Júlio era um cidadão comum, mas agora se encontrava dividido entre dois polos que constituem uma faceta da natureza humana: o medo e a curiosidade.

Havia de decidir entre manter silêncio, mergulhar na dúvida e insegurança, ou aceitar o fruto proibido do conhecimento e cair em perdição.

Sem poder desvirtuar-se de seu caráter, foi pelo caminho difícil:

— Passou alguém aí?
— Quem passaria aqui?
— Ah — ninguém passaria lá; agora ele confiava na sua habilidade de mentir — o Cláudio disse que ia passar mais cedo.
— Cláudia?
— Não, o Cláudio…
— Quem é Cláudio? Não conheço nenhum colega seu chamado Cláudio…

De fato, Cláudio não existia na vida de Júlio. Ele escondia o fato que o único Cláudio era na verdade uma Cláudia, conhecida sua. Foi nela que ele pensou quando mentiu; dizem que em toda mentira existe uma verdade por trás.

— Você vai voltar que horas?
— Não sei. Sente muito minha falta?
— Agora não, mas se demorar muito é capaz de sentir.

Júlio queria xingar, se conteve.

— Brincadeira. Pode demorar o quanto quiser que saudade não mata não, ô.

Ouvindo-a, Júlio desligou o celular e pressionou o pedal da motocicleta. Voou pela estrada em direção à casa da sogra. Sem se dar por ciente, passou por uma rua que não conhecia e aparentemente esqueceu o caminho. As mentiras o assombravam: tinha a Cláudia na mente e para ela foi.

Encostou a moto no muro, abriu deliberadamente o portão com a maçaneta ruim e subiu a escadinha para chamar sua noiva. Gritou o nome dela, Paloma!, três vezes. Na casa, tudo, até as janelas estavam fechadas. Ele não via e nem ouvia nada de dentro. Talvez ela mentiu mesmo e estava em outro lugar, pensou. Virou as costas para ir-se e passar na casa de Rodrigo, mas mal tornou o corpo uma mulher abriu a janela.

— Júlio?
— Cláudia?

A loira estava acabada, brutalmente arruinada. Era uma bruxa com o rosto cansado e o cabelo descabelado, além da roupa: um mero pano branco.

Júlio olhou-a e cogitou do que se tratava.

— Que que você faz aqui?
— Foi mal. Eu tava indo pra casa e errei o caminho.
— Errou o caminho?… Precisa de alguma coisa?
— Não, não. Hoje não.
— Da próxima vez não me vem com essa de “errei o caminho”. Sabe que hoje é quarta, não é quinta.
— As pessoas erram, tá bom? Tchau.

E ele se foi na moto, avoado. Na estrada quase sofre um acidente com um caminhão, por sorte o que ouviu foi apenas as reclamações do condutor. Percorreu todo um caminho para fazer a volta e passou por curvas verdadeiramente mórbidas.

Ao chegar na casa de Paloma seu uniforme fedia a suor e seu rosto vazava líquido dos poros por qualquer razão senão medo e tensão.

A porta destrancada, entrou implodindo adentro. No sofá da sala estava Rodrigo no celular, usando o seu wi-fi.

— Que que tu faz aqui, meu chapa?!
— Que que ele faz aqui, Júlio?! — era Paloma quem dizia essa frase saindo do banheiro.
— Vim te entregar a parada.
— Porra! E tu não passou mais cedo?!
— Passei, pô, mas só tava tua noiva em casa. Ela falou pra te esperar e tô aqui te esperando.
— E nem pra me avisar…
— Ele veio reclamar comigo que ligava e ligava e tu não atendia!… Tu tá todo suado, tava onde? — perguntou Paloma.
— Passei na casa do Cláudio, que te falei.
— Ah tá.

Ainda que discretamente, investigou tudo que tinha de ser, e Júlio por fim se acalmara.

Nesse mesmo dia ele conversou com Paloma e perguntou:

— Por que naquela hora você não disse que o Rodrigo tava aqui?
— Porque você queria saber se eu estava sozinha, não? Pois então, minha mãe e meu irmão estavam em casa.
— Mas o Rodrigo também não estava?
— Ah, esquece isso. Não liga não, com meu irmão ou minha mãe em casa nem faz diferença.

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